martes, 31 de mayo de 2016

(UM PARÊNTESE) PRIMEIRO AS SENHORAS: A FIGURA DO MALANDRO


O que é um malandro? 
Existem diferentes perspectivas da malandragem dependendo dos países. Por exemplo, em Portugal o malandro é visto com olhar depreciativo, sendo percebido como uma pessoa gatuna, patife, marginal, vadia, preguiçosa e maliciosa. No entanto, no Brasil a perspectiva vira e ele é considerado uma pessoa esperta, inteligente (embora não tenha quase recursos para se formar), sagaz, que não é dada ao trabalho, mas que tem uma vida boa, um boêmio e um conquistador. Esta imagem é perfeitamente representada na música dos cantores Chico Buarque e Bezerra da Silva.
Apesar de o autor ter nascido em Moura e ser um reconhecido jornalista português,  ele bosqueja aos malandros como pessoas não criminosas, a través de uma psicanálise deles nos seus diversos tipos: o malandro de raiz, o cleptomaníaco, a pessoa que hoje seria cliente de qualquer psiquiatra, o malandro tiranizado por uma infância desgraçada e o malandro que foi levado para a “má vida” por causa dos males de amores.   
 Segundo os seus livros “Crônica dos bons malandros” e “Primeiro as senhoras” , os malandros têm sentido de humor e agem sempre em função de um certo código de honra que coloca os seus próprios interesses acima de tudo.   


O Edgar é considerado como um malandro?
Sim, desde o começo da história, ele sempre soube atuar antes os assuntos de investigação. Ele mesmo era um esperto nisso porque ele também foi inspetor, mas sigiloso. No romance também se nota que o Edgar nunca deixou que o senhor Inspetor perguntasse, já que ele sempre queria levar vantagens no assunto. Porém por que ele fazia tudo isso?  Porque ele sabia tudo sobre seu próprio rapto, mas antes de dizer a verdade, ele tinha que apresentar suas razões de uma maneira que ninguém suspeitasse dele porque além de ser malandro ele era um cavalheiro.  


Como identifica-lo no romance?
Na verdade se pode identificar em todo o romance, mas vou citar algumas partes importantes que revelar o tipo de personagem. Por exemplo, no seguinte parágrafo aparece a verdadeira razão porque ele sempre falava de outros temas e realmente o fazia porque sabia bem o que queria obter com suas insinuações, confundir ao senhor inspetor.
“Primeiro, insinuar não liga com meu carácter. A insinuação é a valentia dos manhosos. Quem insinua não acusa, por falta de certezas ou de tomates, mas vai acusando. Põem um pé no estribo e outro no chão em posição que dê jeito para mudar de cavalo.” (Página 56).
Outro exemplo está na página 66 quando revela quem escreveu o bilhete ao Sertório Egídio e como um bom malandro que era, soube disfarçar tudo sem que ninguém acreditasse que ele tinha participado no rapto. Por exemplo:

Perguntava: “Caro Edgar, quem acha você que escreveu aquele bilhete ao Sertório Egídio Miranda?”

Resposta imediata: “Eu.”

Nesse instante, saltava-lhe o rabo da cadeira e havia de gritar, triunfante: “Ai confessa? Confessa que o rapto não passou de uma farsa?”

E eu explicava:qual farsa, escrevi o que eles mandaram.

“Eles quem?” estou a vê-lo de sorrisinho malicioso.

 
A figura do malandro a partir da sua relação com a Gilberta
Na página 45, no capítulo titulado “Minha querida “ex”", podemos ver claramente como é que o Edgar se sente com  a Gilberta: seu casamento durou só 14 meses, mas a relação destes dois perdurou muito mas tempo. Continuaram sendo amigos e confidentes mas não tinham nenhum tipo de relação sexual.
Porém, o Edgar, que sabia tanto quanto a Gilberta que eles não deviam voltar a estar juntos, sentia um inexplicável desagrado pelos homens que queriam aproximar-se dela. Por quê? Por uma simples razão, uma razão que reflete sua condição de malandro: ele achava que nenhum dos candidatos era digno de sucedê-lo, já que ele era muito superior. 
O Edgar afirma para o inspetor, falando do Silvio Pinalva, o namorado e futuro esposo da Gilberta que “não lhe pagava na mesma moeda, o senhor Inspetor já me vai conhecendo, sabe como sou superior a sentimentos mesquinhos”. E é claro, um “malandro” não pode sucumbir a sentimentos irracionais, ele deve sempre agir de forma sossegada e esperta, mesmo quando se sentir intimidado. 
Como mecanismo de defesa, o Edgar tenta menosprezar os outros pretendentes da Gilberta alegando que “ela afasta os candidatos como se eles fossem o que realmente são: melgas. No fundo, tudo se deve ao seu alto nível de exigência, veja o senhor Inspetor que até hoje só aceitou um homem e fui eu”.
Neste capitulo, no qual ele explica sua história com a Gilberta, também explica dois fatores importantes: que eles se separaram por birras e que nunca voltaram porque pouco tempo depois “tão pouco que não chegou para esfriar, eu retomava a vocação de celibatário errante, de par de mamas em par de mamas até a Renata chegar”. 
Esta atitude lhe da mais uma caraterística de malandro: a de um amante invejável. 
Por ultimo, a representação mais importante da malandragem na sua relação: ele mente para a Gilberta e faz com que ela vá até o Inspetor para dar seu depoimento. Isto é, manipula-a porque sabe muito bem que se ela soubesse a verdade, “não se teria sentado diante do Senhor inspetor a participar da ocorrência”.
E esta, senhores, é a caraterística mais importante de um malandro: usar as mentiras e a manipulação para obter vantagens de qualquer situação.

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