viernes, 29 de julio de 2016

FIGURA DO CAIM REPRESENTADA POR SARAMAGO



Depois de lermos o livro, decidimos extrairmos algumas figuras de linguagem que achamos interessantes e que estavam presentes em frases que refletiam o Caim, sua forma de pensar e de ser. 



CAMPOS LEXICAIS
SUSBTANTIVOS

Acordo / Responsabilidade / Segredo / Deus / Crime / Culpa / Condenação / Castigo / Remorso / Vítimas / Assassino / Espírito.


VERBOS

Matar / Morrer / Devorar.


ADJETIVO

Inquieto / Perplexo / Atónito / Desconcertado / Malicioso / Malvado / Infame.



FIGURAS DE LINGUAGEM

COMPARAÇÃO 

Confrontar uma coisa com outra para lhe determinar diferença, semelhança ou relação.
“Enquanto Abel preferia a companhia das ovelhas e dos cordeiros, as alegrias de Caim iam todas para as enxadas, orquilhas e as gadanhas, um, fadado para abrir caminho na pecuária, outro, para singrar na agricultura” PAG 28

CONCILIATO

Retoma-se um termo usado anteriormente no discurso e reutiliza-se com um sentido oposto o diferente ao original.
“E de todos os seres, dirás, mas não de mim nem de minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse a abel quando estava na tua mão evitado, bastaria que por um momento abandonasses a soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses, bastaria que por um momento fosses realmente misericordioso”  PAG 29

DISTINCTIO

Este recurso exprime o inapropriado de considerar como sinônimos dois termos relacionados.
“Tu é que o mataste, Sim, é verdade, eu fui o braço executor, mas a sentença foi ditada por ti” PAG 31

ANTÍTESE

Consiste na aproximação de termos contrários, de palavras que se opõem pelo sentido, com a produção de uma expressão com sentido possível e lógico na língua.
“Não teve nem sonhos nem pesadelos, dormiu como se supõe que deverá dormir uma pedra, sem consciência, sem responsabilidade, sem culpa, porém, ao acordar, à primeira luz da manha, as suas palavras foram, Matei o meu irmão”  PAG 27

METÁFORA

Figura de retórica em que a si
gnificação habitual de uma palavra é substituída por outra, só aplicável por comparação subentendida.
“O futuro já está escrito, o que nós não sabemos é ler-lhe a página” PAG 107

SÍMILE

Comparação que se faz entre duas coisas que se assemelham
“Não creio, os deuses são como pocos sem fundo, se te debrucares neles nem mesmo a tua imagem conseguirás ver,  Com o tempo todos os pocos acabam por secar, a tua hora também há de chegar”. PAG 127

CORRECTIO

Introduz-se uma “correção” sobre um elemento emitido no discurso. Esta correção apresenta uma relação de antonímia entre os elementos implicados.
“Não nasci para isto, pensa caim. Também não havia nascido para matar o seu próprio irmão , e apesar disto tinha-o deixado cadáver no meio do campo com os olhos e a boca cobertos de moscas...”  PAG 49

IRONIA

E uma forma de expressão literária ou uma figura de retórica que consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, deixando entender uma distância entre aquilo que dizemos e que realmente pensamos.
“O teu sinal negro na testa está maior, parece um sol negro a levantar-se do horizonte dos olhos, Bravo, exclamou Caim batendo as palmas, não sabia que fosses dado à poesia” PAG 127



Caim como narrador testemunha

Ele não é a personagem principal da história, não obstante, ele vive como personagem secundária os aspetos mais importantes do Antigo Testamento. Ele é um olhar objetivo dos acontecimentos na Bíblia.


José Saramago e a cronologia

Como podia fazer Jose Saramago para que todas as personagens do Antigo Testamento estivessem vinculadas? Como relacionar um crime com outro? Em vez de utilizar o presente, pretérito e o futuro, o autor decide trabalhar com o tempo presente nada mais. Isto é, os tipos de presente: o que tem se passado, o que esta se passando e o que vai se passar. Desta maneira, Saramago pôde ir ao tempo que quiser sem fazer saltos. Segundo a Bíblia, Caim aparece para criar Enoch ou artes. No entanto, cá sua história muda para ele ser um vagabundo eterno, que nada fundou, mas que é testemunha da verdadeira relação entre as ações de Deus e as ações da humanidade.


José Saramago, Caim e Deus

O autor coloca todas as personagens em pé de igualdade, como é o caso da relação entre Deus e Caim. O homem foi criado a imagem e semelhança de Deus, no discurso bíblico, Deus é o ser maior, incomparável, inquestionável, já na narrativa de Saramago Deus, apesar de todo o poder divino que possui, encontra-se em pé de igualdade com o Caim (uma aproximação ao nível discursivo) – observável, inclusive, pela grafia de todos os substantivos próprios com letra minúscula. Interessante notarmos que a relação entre Deus e Caim ocorre de certa forma, numa altura de igualdade, em que nenhuma das personagens se sente ou é apresentada como inferior a outra.



A mensagem de Saramago a traves de Caim

Percebemos então que José Saramago aderiu à premissa romântica de que fazer Arte significa transfigurar um objeto em função dos valores subjetivos do eu. Isso proporcionou a este artista da palavra interpelar aqueles valores que lhe foram impostos e com os quais não concordava. Percebemos que, na construção de Caim, o primeiro assassino da historia da humanidade, a primeira pessoa que questiona as ações e intenções de Deus e o culpa das mortes na Bíblia, Saramago busca nesse livro sagrado lacunas que os demais seres humanos não haviam observado até então.

Caim é uma personagem criada para transmitir a critica que tem Saramago com a Bíblia e seu descontento com a percepção da mesma. No decorrer da narrativa, Caim vive e vê os vários mandos e desmandos de Deus para com a humanidade, aponta injustiças que esta divindade comete, critica suas ações, discute diretamente com ele, enfim, possui um olhar muito mais crítico, ativo do que passivo em relação a este Deus, a esta figura paternal que tudo rege e em tudo manda.

Nesta passagem, Caim põe à prova a misericórdia divina, Saramago ironiza com o poder de Deus em controlar a vida humana e de certa maneira o desafia, dizendo que sua liberdade a ninguém pertence, nem mesmo a uma divindade. A paródia que o narrador imprime ao texto bíblico é um processo de desconstrução da “verdade” bíblica, lançando sobre ela a dúvida acerca do amor de Deus.

Observamos que Caim está convencido e, juntamente com o narrador, induz o interlocutor textual a perceber que Deus criou o mundo, os homens, os seres em geral, apenas para se distrair do ostracismo divino. Ele dotou os homens de vida, inteligência, entretanto, busca a todo o momento controlá-los, manipulá-los, se lhes desagradam, Deus simplesmente os destrói e inicia a “brincadeira” com outros. Porém, Caim, enquanto alguém que criou um embate de ódio contra o senhor, em sua mísera humanidade, deseja acabar com as atrocidades cometidas pela divindade.

“Eu não fiz mais que matar um irmão e o senhor castigou-me, quero ver agora quem vai castigar o senhor por estas mortes, pensou caim, e logo continuou, Lúcifer sabia bem o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito.”

Valentina Coronado e Verónica Sarache

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