Depois de lermos o livro, decidimos extrairmos algumas
figuras de linguagem que achamos interessantes e que estavam presentes em
frases que refletiam o Caim, sua forma de pensar e de ser.
Caim como narrador testemunha
CAMPOS
LEXICAIS
SUSBTANTIVOS
Acordo / Responsabilidade / Segredo / Deus / Crime / Culpa
/ Condenação / Castigo / Remorso / Vítimas / Assassino / Espírito.
VERBOS
Matar / Morrer / Devorar.
ADJETIVO
Inquieto / Perplexo / Atónito / Desconcertado / Malicioso
/ Malvado / Infame.
FIGURAS
DE LINGUAGEM
COMPARAÇÃO
Confrontar uma coisa com outra para lhe determinar diferença, semelhança ou relação.
“Enquanto Abel preferia a companhia das ovelhas e dos
cordeiros, as alegrias de Caim iam todas para as enxadas, orquilhas e as
gadanhas, um, fadado para abrir caminho na pecuária, outro, para singrar na
agricultura” PAG 28
CONCILIATO
Retoma-se um termo usado anteriormente no discurso e
reutiliza-se com um sentido oposto o diferente ao original.
“E de todos os seres, dirás, mas não de mim nem de
minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu
matasse a abel quando estava na tua mão evitado, bastaria que por um momento
abandonasses a soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses,
bastaria que por um momento fosses realmente misericordioso” PAG 29
DISTINCTIO
Este recurso exprime o inapropriado de considerar como
sinônimos dois termos relacionados.
“Tu é que o mataste, Sim, é verdade, eu fui o braço
executor, mas a sentença foi ditada por ti” PAG 31
ANTÍTESE
Consiste na aproximação de termos contrários, de
palavras que se opõem pelo sentido, com a produção de uma expressão com sentido
possível e lógico na língua.
“Não teve nem sonhos nem pesadelos, dormiu como se supõe
que deverá dormir uma pedra, sem consciência, sem responsabilidade, sem culpa,
porém, ao acordar, à primeira luz da manha, as suas palavras foram, Matei o meu
irmão” PAG 27
METÁFORA
Figura de retórica em que a si
gnificação habitual de uma palavra é substituída por outra, só aplicável por comparação subentendida.
gnificação habitual de uma palavra é substituída por outra, só aplicável por comparação subentendida.
“O futuro já está escrito, o que nós não sabemos é
ler-lhe a página” PAG 107
SÍMILE
Comparação que se faz entre duas coisas que se assemelham
“Não creio, os deuses são como pocos sem fundo, se te
debrucares neles nem mesmo a tua imagem conseguirás ver, Com o tempo todos os pocos acabam por secar,
a tua hora também há de chegar”. PAG 127
CORRECTIO
Introduz-se uma “correção” sobre um elemento emitido
no discurso. Esta correção apresenta uma relação de antonímia entre os
elementos implicados.
“Não nasci para isto, pensa caim. Também não havia
nascido para matar o seu próprio irmão , e apesar disto tinha-o deixado cadáver
no meio do campo com os olhos e a boca cobertos de moscas...” PAG 49
IRONIA
E uma
forma de expressão literária ou uma figura de retórica que
consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, deixando entender uma
distância entre aquilo que dizemos e que realmente pensamos.
“O teu sinal negro na testa está maior, parece um sol
negro a levantar-se do horizonte dos olhos, Bravo, exclamou Caim batendo as
palmas, não sabia que fosses dado à poesia”
PAG 127
Caim como narrador testemunha
Ele não é a personagem principal da
história, não obstante, ele vive como personagem secundária os aspetos mais
importantes do Antigo Testamento. Ele é um olhar objetivo dos acontecimentos
na Bíblia.
José Saramago e
a cronologia
Como podia fazer Jose Saramago para
que todas as personagens do Antigo Testamento estivessem vinculadas? Como
relacionar um crime com outro? Em vez de utilizar o presente, pretérito e o
futuro, o autor decide trabalhar com o tempo presente nada mais. Isto é, os
tipos de presente: o que tem se passado, o que esta se passando e o que vai se
passar. Desta maneira, Saramago pôde ir ao tempo que quiser sem fazer saltos. Segundo
a Bíblia, Caim aparece para criar Enoch ou artes. No entanto, cá sua história
muda para ele ser um vagabundo eterno, que nada fundou, mas que é testemunha da
verdadeira relação entre as ações de Deus e as ações da humanidade.
José Saramago,
Caim e Deus
O autor coloca todas as personagens
em pé de igualdade, como é o caso da
relação entre Deus e Caim. O homem foi criado a imagem e semelhança de Deus, no
discurso bíblico, Deus é o ser maior, incomparável, inquestionável, já na
narrativa de Saramago Deus, apesar de todo o poder divino que possui,
encontra-se em pé de igualdade com o Caim (uma aproximação ao nível discursivo)
– observável, inclusive, pela grafia de todos os substantivos próprios com
letra minúscula. Interessante notarmos que a relação entre Deus e Caim ocorre de
certa forma, numa altura de igualdade, em que nenhuma das personagens se sente
ou é apresentada como inferior a outra.
A mensagem de Saramago
a traves de Caim
Percebemos então que José Saramago
aderiu à premissa romântica de que fazer
Arte significa transfigurar um objeto em função dos valores subjetivos do eu.
Isso proporcionou a este artista da palavra interpelar aqueles valores que lhe
foram impostos e com os quais não concordava. Percebemos que, na construção de
Caim, o primeiro assassino da historia
da humanidade, a primeira pessoa que questiona as ações e intenções de Deus e o
culpa das mortes na Bíblia, Saramago busca
nesse livro sagrado lacunas que os demais seres humanos não haviam observado
até então.
Caim é uma personagem criada para
transmitir a critica que tem Saramago com a Bíblia e seu descontento com a
percepção da mesma. No decorrer da narrativa, Caim vive e vê os vários mandos e desmandos de Deus para com a
humanidade, aponta injustiças que
esta divindade comete, critica suas
ações, discute diretamente com ele,
enfim, possui um olhar muito mais crítico, ativo do que passivo em relação a
este Deus, a esta figura paternal que tudo rege e em tudo manda.
Nesta passagem, Caim põe à prova a misericórdia divina, Saramago ironiza com o poder de Deus em
controlar a vida humana e de certa maneira o desafia, dizendo que sua liberdade a ninguém pertence, nem mesmo
a uma divindade. A paródia que o narrador imprime ao texto bíblico é um processo
de desconstrução da “verdade” bíblica, lançando sobre ela a dúvida acerca do
amor de Deus.
Observamos que Caim está convencido
e, juntamente com o narrador, induz o interlocutor textual a perceber que Deus criou o mundo, os homens, os seres em
geral, apenas para se distrair do ostracismo divino. Ele dotou os homens de
vida, inteligência, entretanto, busca a todo o momento controlá-los,
manipulá-los, se lhes desagradam, Deus simplesmente os destrói e inicia a “brincadeira”
com outros. Porém, Caim, enquanto alguém que criou um embate de ódio contra o
senhor, em sua mísera humanidade, deseja acabar com as atrocidades cometidas
pela divindade.
“Eu não fiz
mais que matar um irmão e o senhor castigou-me, quero ver agora quem vai
castigar o senhor por estas mortes, pensou caim, e logo continuou, Lúcifer
sabia bem o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por
inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito.”
Valentina Coronado e Verónica Sarache


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