viernes, 29 de julio de 2016

REFLEXÃO: LÍNGUAS – VIDAS EM PORTUGUÊS DOCUMENTÁRIO



Apesar deste documentário estar dirigido para um público de fala portuguesa, está legendado. Ora, esta é uma ilustração muito clara daquilo que o próprio vídeo quer transmitir, né? Estamos falando da diversidade linguística do português e, portanto, da diversidade cultural que achamos nos países lusófonos. O uso de legendas em português é uma mostra clara dessa própria diversidade. 


São tantos os sotaques e os jeitos de falar de cada povo lusófono, que era preciso acrescentar legendas que esclarecessem a mensagem para aqueles ouvintes que não faziam ideia do que certa pessoa dizia. 


Procuramos várias opiniões sobre o documentário e encontramos muita gente que achava dificílimo perceber o que diziam algumas pessoas entrevistadas, não só pelo sotaque, mas também pela forma em que estruturavam a mensagem, chegando mesmo até a considerar que se tratava duma outra língua.


Daí que o uso das legendas fosse completamente necessário. Isto dá muito para pensar. Vamos imaginar um cenário em que o vídeo se tratasse das variedades linguísticas do espanhol.  Acham que aconteceria a mesma coisa? Acham que o vídeo teria legendas? Na nossa opinião não seria assim. Ora, quantos países têm o espanhol como língua oficial?  24. 


 Nesses 24 países se fala um espanhol próprio que difere dos outros pelo vocabulário e pela pronuncia. Há uma diversidade espetacular, inclusive, segundo nós, mais ampla do que a diversidade lusófona. Porém, a tendência hispanófona é aquela de criar um espanhol “standard”, né? Um espanhol standard que neutralize as grandes diferenças e que faca com que possamos compreender-nos  entre nós próprios.


Este documentário, entretanto, mostra uma realidade oposta, já que podemos ver a vontade do lusófono de manter sua língua rica, diversa e heterogénea.  Há legendas, é verdade, mas as legendas são uma transcrição exata daquilo que foi dito pelo orador, não há correções nem termos neutros porque a intenção é que o público perceba os sons e as palavras, mas mantendo o jeito em que foram pronunciadas as frases e respeitando sua estilística. 


Reflitamos: nós, como estudantes de português, já enfrentamos a decisão da escolha de uma variante e agora, reparem, como foi essa escolha? Para nós, por exemplo, foi questão de identificação. Nós nos sentimos identificadas com a variante brasileira desde o começo, sei-là porque, mas foi assim. Com certeza, uma coisa parecida aconteceu com vocês e agora, quando se enganam e dizem ou escrevem algo numa variante que não é a vossa, sentem-se estranhos, como si estivessem interpretando o papel de uma outra pessoa. 


Vejamos outro caso: já neste quarto ano tivemos de compreender uma coisa. Sem importar nossa variante, é preciso conhecemos as duas. Se nós não conhecêssemos bem o português europeu, correriamos o risco de perdermos trabalhos. Por quê? Porque é a mesma língua, mas ninguém envia um encargo de português europeu para uma tradutora que só conhece de português brasileiro.  


Reparam na forte conservação que dão os falantes lusófonos para seu jeito de falar? E claro que o fazem. O português é uma língua que edifica realidades e se deixa ao mesmo tempo influenciar por elas. Vemo-lo no vídeo, cantores, escritores, pessoas sem muito pobres, todas falam português, mas e um jeito diferente. 


Finalizamos esta reflexão com uma frase pronunciada por  José Saramago no final do documentário: 


“Quase me apetece dizer que não há uma língua portuguesa. Há línguas em português. É uma língua que tinha de passar, inevitavelmente por transformações segundo os lugares onde a falam, as culturas e as influências. Mas isso não tira nada da evidencia de que se trata do corpo da língua portuguesa, um corpo espalhado pelo mundo”.


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