Apesar deste documentário estar dirigido para um
público de fala portuguesa, está legendado. Ora, esta é uma ilustração muito
clara daquilo que o próprio vídeo quer transmitir, né? Estamos falando da
diversidade linguística do português e, portanto, da diversidade cultural que
achamos nos países lusófonos. O uso de legendas em português é uma mostra clara
dessa própria diversidade.
São tantos os sotaques e os jeitos de falar de cada
povo lusófono, que era preciso acrescentar legendas que esclarecessem a
mensagem para aqueles ouvintes que não faziam ideia do que certa pessoa dizia.
Procuramos várias opiniões sobre o documentário e
encontramos muita gente que achava dificílimo perceber o que diziam algumas
pessoas entrevistadas, não só pelo sotaque, mas também pela forma em que
estruturavam a mensagem, chegando mesmo até a considerar que se tratava duma
outra língua.
Daí que o uso das legendas fosse completamente
necessário. Isto dá muito para pensar. Vamos imaginar um cenário em que o vídeo
se tratasse das variedades linguísticas do espanhol. Acham que aconteceria a mesma coisa? Acham
que o vídeo teria legendas? Na nossa opinião não seria assim. Ora, quantos
países têm o espanhol como língua oficial?
24.
Nesses 24 países
se fala um espanhol próprio que difere dos outros pelo vocabulário e pela
pronuncia. Há uma diversidade espetacular, inclusive, segundo nós, mais ampla
do que a diversidade lusófona. Porém, a tendência hispanófona é aquela de criar
um espanhol “standard”, né? Um espanhol standard que neutralize as grandes
diferenças e que faca com que possamos compreender-nos entre nós próprios.
Este documentário, entretanto, mostra uma realidade
oposta, já que podemos ver a vontade do lusófono de manter sua língua rica,
diversa e heterogénea. Há legendas, é
verdade, mas as legendas são uma transcrição exata daquilo que foi dito pelo
orador, não há correções nem termos neutros porque a intenção é que o público
perceba os sons e as palavras, mas mantendo o jeito em que foram pronunciadas
as frases e respeitando sua estilística.
Reflitamos: nós, como estudantes de português, já
enfrentamos a decisão da escolha de uma variante e agora, reparem, como foi
essa escolha? Para nós, por exemplo, foi questão de identificação. Nós nos
sentimos identificadas com a variante brasileira desde o começo, sei-là porque,
mas foi assim. Com certeza, uma coisa parecida aconteceu com vocês e agora,
quando se enganam e dizem ou escrevem algo numa variante que não é a vossa,
sentem-se estranhos, como si estivessem interpretando o papel de uma outra
pessoa.
Vejamos outro caso: já neste quarto ano tivemos de
compreender uma coisa. Sem importar nossa variante, é preciso conhecemos as
duas. Se nós não conhecêssemos bem o português europeu, correriamos o risco de
perdermos trabalhos. Por quê? Porque é a mesma língua, mas ninguém envia um
encargo de português europeu para uma tradutora que só conhece de português
brasileiro.
Reparam na forte conservação que dão os falantes
lusófonos para seu jeito de falar? E claro que o fazem. O português é uma
língua que edifica realidades e se deixa ao mesmo tempo influenciar por elas.
Vemo-lo no vídeo, cantores, escritores, pessoas sem muito pobres, todas falam
português, mas e um jeito diferente.
Finalizamos esta reflexão com uma frase pronunciada
por José Saramago no final do
documentário:
“Quase me apetece dizer que não há uma língua
portuguesa. Há línguas em português. É uma língua que tinha de passar,
inevitavelmente por transformações segundo os lugares onde a falam, as culturas
e as influências. Mas isso não tira nada da evidencia de que se trata do corpo
da língua portuguesa, um corpo espalhado pelo mundo”.


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