sábado, 2 de julio de 2016

O PETRÓLEO ACABOU


Aproxima-se a hora da manchete.
O petróleo acabou.
Acabaram as alucinações
os crimes, os romances
as guerras do petróleo.
O mundo fica livre
do pesadelo institucionalizado.

Atiradores ao lixo
motores de combustão interna
e lataria colorida,
o Museu da Sucata exibe
o derradeiro carro carrasco.
Tem etiqueta de remorso:
“Cansei a humanidade”.

Ruas voltam a existir
para o homem
e as alegrias de estar-junto.
A poluição perdeu
seu aliado fidelíssimo.
A pressa acabou.

Acabou, pessoal! o congestionamento,
o palavrão,
a neurose coletiva.
A morte violenta entre ferragens
com seu véu de óleo
e chamas
acabou.


Milhões de arvores meninas irrompem do asfalto
e da consciência
em carnaval de sol.
Dão sombras grátis
ao papo dos amigos,
à doçura do ócio no intervalo
do batente,
do amor antes aprisionado sob o capô
ou esmigalhado pelas rodas,
â vida de mil formas naturais.
Pessoas, animais,
confraternizam: Milagre!

Dura 5 (?) minutos a festa
da natureza com a cidade.
Irrompem
formas eletrônicas implacáveis,
engenhos teleguiados catapúlticos
de máximo poder ofensivo
e reconquistam o espaço
em que a vida bailava.

Recomeça o problema de viver
na cidade-problema?

De que valeu cantar
o fim da gasolina de alta octanagem?

Enquanto não vem a formidável manchete
vamos curtindo
outras manchetinhas a varejo.
Vamos curtindo
a visão do caos e do extermínio
na rua, na foto,
no sono atormentado:
Mas 400 carros por dia nas pistas
que encolhem, encolhem, são apenas
enfumaçadas fita de rangidos.
Mais loucura, mais palavrão e mais desastre.

E lemos Ralph Nader:
a cada 10 minutos
morre uma pessoa em acidente
de carro; a cada 15 segundos
sai alguém ferido
na pátria industrial dos automóveis.
Vamos imitá-la?
Vamos vencê-la em desafio
de quem mata mais e morre mais?
Ou vamos ficar apenas
engarrafados sem garrafa
no ar poluído e constelado
de placa, de sinais
que assinalam o grande entupimento?

Perguntas estas são mensagem
também ela espremida na garrafa
que bóia no alto-mar de ondas surdas
e cegas à espera do futuro que as responda.

- Carlos Drummond de Andrade.

4 comentarios:

C´est la vie dijo...

Gostei demais, me pergunto que aconteceria se nosso petróleo acabasse. Qual é a nacionalidade do autor?

Verónica Sarache dijo...

Ele é brasileiro! Das Minas Gerais.

Unknown dijo...

Gostei muito do poema. Seria maravilhoso se só com a desaparição do petróleo seja suficiente, mas acho que a mentalidade da humanidade deve mudar para poder ter um mundo melhor. A solução não só está no petróleo acabasse.

Unknown dijo...

Para um país cuja economia depende do petróleo, seria um desastre se esse combustível fóssil acabasse porque não estaria habituado à explotação de outros setores de produção. Coisa que seria diferente se não se dependesse dele. No entanto, o verdadeiro problema aqui, não é económico mas sim social. o fato de sermos indivíduos que achamos que a nossa vida e felicidade está condicionada pelo uso de aparelhos tecnológicos e, não pelo modo consciente de viver com a natureza e o resto do mundo, é o que não nos permite progredir e evoluir como uma sociedade em equilíbrio com o ambiente. Razão que poderia levar à extinção humana.

Publicar un comentario